Memorizar versículos sempre foi uma prática distintiva dos protestantes. Uma memória com a promessa de municiar o crente para o enfrentamento da vida. Para cada situação há os recortes do texto bíblico capazes de diluir resistências, superar dúvidas, vencer embates pela razão, acalmar, motivar, consolar, sustentar o dono da memória enquanto vive.
Lembro dos cultos em que o louvor era seguido por um momento de recitação de versículos da Bíblia. Na Escola Bíblica, memorizar o versículo bíblico era condição para uma aula bem sucedida. O bom “evangelista”, este conquistador de adesões, destacava-se pela habilidade de sacar o texto, com a devida referência bíblica, apropriado para cada contestação dos resistentes à pregação. Uma pregação bíblica confunde-se entre protestantes com uma pregação que cita muitos textos bíblicos, mesmo que a exposição das idéias mostre-se rasa ou um lugar comum.
A mania de memória além de carregar a crença acrítica de que o conhecimento imediato do texto é posse plena da verdade, desprezando a mediação dos conceitos, também expõe a falência do projeto de quem dela faz uso: a busca desesperada de memória. Buscamos memória porque perdemos a presença. Quanto menos há, de mais lembrança carecemos. Quem faz o álbum das fotos é quem encerrou as férias. Quem, além do apaixonado por fotografia, gasta as suas férias para apreciar as fotos que dela está fazendo? O fato presente prescinde de memória. Ninguém precisa lembrar do que ainda está fazendo. Fixam-se lembranças do que agora está vazio.
Ninguém precisa se lembrar do que presencia. E quanto mais presentes nós estamos em um movimento mais dele nos esquecemos. A melhor imagem que me ocorre é a do motorista. Dirige bem quem se esquece dos mecanismos da direção e se ocupa tão somente do trânsito. Quem é o bom motorista? O que precisa listar de memória cada movimento do câmbio e sua sincronia com os pedais, ou quem o faz sem sequer se dar conta de que pressiona o pedal da embreagem à medida que encaixa a próxima marcha? Aprendemos a dirigir quando nos esquecemos dos mecanismos da direção enquanto dirigimos.
É assim com tudo o que é presente na vida. Quanto mais presente e pertencente a nós algo é mais dele nos esquecemos. É assim quando lemos, quando fazemos cálculos, quando jogamos, quando fazemos sexo, quando comemos, quando vivemos.
A dor é outro exemplo. Não nos lembramos das partes do corpo se com elas está tudo bem. Quando nos lembramos do dente é porque ele está doendo. A lembrança no corpo é sua doença.
Não pode ser diferente com a Bíblia. Ela é uma literatura que de tão identificada com a nossa vida é viva. Sua memorização é certificação de seu adoecimento ou morte. Sua presença em nossa prática, relações, escolhas, sentimentos, moralidade, afeições, é proporcional ao seu esquecimento. Se pudermos falar de uma mente bíblica, ou de viver biblicamente, diremos que uma prática bíblica é a que da Bíblia não precisa fazer referência para por ela ser afetada. Pois o que precisa ser ritualmente memorado está longe, tanto quanto se esquece de algo de tão presente que se faz.
Niezsche denuncia a memória como um mal humano na Segunda Dissertação da sua Genealogia da Moral. Chama a memória de desejo de controle do futuro. Precisamos de memória porque na ânsia de controlar o futuro fazemos promessas e com elas comprometemos nossa existência com o que não está mais presente. Essa necessidade de memória impede o esquecimento como o corpo doente é impedido da digestão. O indivíduo que busca a memória é como o apéptico, o que não faz digestão, regurgitando idéias mortas, ressentindo o que já passou.
A melhor Bíblia é a que esquecemos de tão digerida e absorvida por nossa vivência. A Bíblia que precisa ser memorizada é uma porção indigesta. Nem poderia ser diferente. Transformá-la em uma coleção sistemática, simétrica e absoluta de verdades é roubá-la de sua digestibilidade, sua profunda e radical penetração em nossa vida. A Bíblia que deixa de ser literatura, visto que é essencialmente narrativa e poética, torna-se morta de tão distante e estática. Um clamor desesperado à memória. Um mortuário da fé.
A Bíblia que está de fato em nós é a que esquecemos. De tanto que faz sentido. De tanto que nos permeia.
Elienai Jr.
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
terça-feira, 7 de outubro de 2008
Sobre a esperança
Esperança significa o quê? De verdade, sem chavão, qual a definição de esperança? É difícil falar sobre esta verdade da teologia.
Nietzsche espezinhou a esperança. Dizia mais ou menos o seguinte: “ter esperança é postergar o dever que exige ação para o agora”. Nesse sentido, concordo com ele. Eu também não desejo uma "virtude" que camufle a covardia. E com a minha idade, já não creio nesse tipo de esperança.
Também concordo com Norberto Bobbio sobre o andamento da História (assim, com maiúscula). Em uma entrevista, Bobbio disse que depois de testemunhar duas guerras mundiais, achava-se incapaz de perceber no futuro próximo, algum "sinal visível de que a História se encaminhasse para uma plenitude feliz". O entrevistador insistiu: “Em que é que o senhor deposita suas esperanças, professor?”. A resposta veio cândida: “Não tenho esperança alguma. Como leigo, vivo em um mundo onde a dimensão da esperança é desconhecida”.
Também não tenho esperança de que a indústria bélica seja desmontada para que se fabriquem tratores, arados, foices e enxadas. Os gastos com armamentos permanecerão altos. O teatro de guerra pode até deixar de requerer porta-aviões monumentais, ogivas nucleares com poder letal de acabar com o planeta várias vezes. Os estrategistas vão transferir suas atenções para as favelas estreitas e sujas do Oriente Médio. Mas os orçamentos militares vão consumir muito dinheiro.
Também não tenho esperança de que haverá melhor distribuição de riqueza entre as nações. Por mais que cresça, o bolo da prosperidade nunca será dividido solidariamente. A geopolítica colonialista, que desgraçou com a América Latina e África, permanecerá intocada.
Também não tenho esperança de que a brecha tecnológica, que separa as nações desenvolvidas das atrasadas, se estreitará. Pelo contrário, as grandes potências continuarão colecionando Prêmios Nobel, investindo em pesquisa genética e fabricando robôs de altíssima precisão. E os pobres respirando o ar fétido dos esgotos a céu aberto e bebendo água com coliformes fecais; para morrerem cedo.
Vaclav Havel defininiu esperança como “ânimo de lutar não porque vai dar certo, mas porque vale a pena”. E Chico Buarque de Holanda acertou no alvo quando traduziu do espanhol, uma das músicas da ópera “Don Quixote de La Mancha”:
Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer
O inimigo invencível
Negar
Quando a regra é vender
Sofrer
A tortura implacável
Romper
A incabível prisão
Voar
Num limite improvável
Tocar
O inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão.
Minha esperança também se parece com o pensamento do rabino Jonathan Sacks. Não aceito “o status quo como vontade Divina”. Minha esperança é uma espécie de “fé, na qual Deus convida os seres humanos a se tornarem seus parceiros no trabalho da redenção, a construírem uma sociedade baseada na justiça e por todos percebida como tal“.
Portanto, a única esperança que acolho, resiste, semeia, fermenta, bate de frente com o sistema, advoga o direito das crianças, socorre os idosos, visita os encarcerados e devolve visão aos cegos.
Soli Deo Gloria.
Ricardo Gondim
Nietzsche espezinhou a esperança. Dizia mais ou menos o seguinte: “ter esperança é postergar o dever que exige ação para o agora”. Nesse sentido, concordo com ele. Eu também não desejo uma "virtude" que camufle a covardia. E com a minha idade, já não creio nesse tipo de esperança.
Também concordo com Norberto Bobbio sobre o andamento da História (assim, com maiúscula). Em uma entrevista, Bobbio disse que depois de testemunhar duas guerras mundiais, achava-se incapaz de perceber no futuro próximo, algum "sinal visível de que a História se encaminhasse para uma plenitude feliz". O entrevistador insistiu: “Em que é que o senhor deposita suas esperanças, professor?”. A resposta veio cândida: “Não tenho esperança alguma. Como leigo, vivo em um mundo onde a dimensão da esperança é desconhecida”.
Também não tenho esperança de que a indústria bélica seja desmontada para que se fabriquem tratores, arados, foices e enxadas. Os gastos com armamentos permanecerão altos. O teatro de guerra pode até deixar de requerer porta-aviões monumentais, ogivas nucleares com poder letal de acabar com o planeta várias vezes. Os estrategistas vão transferir suas atenções para as favelas estreitas e sujas do Oriente Médio. Mas os orçamentos militares vão consumir muito dinheiro.
Também não tenho esperança de que haverá melhor distribuição de riqueza entre as nações. Por mais que cresça, o bolo da prosperidade nunca será dividido solidariamente. A geopolítica colonialista, que desgraçou com a América Latina e África, permanecerá intocada.
Também não tenho esperança de que a brecha tecnológica, que separa as nações desenvolvidas das atrasadas, se estreitará. Pelo contrário, as grandes potências continuarão colecionando Prêmios Nobel, investindo em pesquisa genética e fabricando robôs de altíssima precisão. E os pobres respirando o ar fétido dos esgotos a céu aberto e bebendo água com coliformes fecais; para morrerem cedo.
Vaclav Havel defininiu esperança como “ânimo de lutar não porque vai dar certo, mas porque vale a pena”. E Chico Buarque de Holanda acertou no alvo quando traduziu do espanhol, uma das músicas da ópera “Don Quixote de La Mancha”:
Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer
O inimigo invencível
Negar
Quando a regra é vender
Sofrer
A tortura implacável
Romper
A incabível prisão
Voar
Num limite improvável
Tocar
O inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão.
Minha esperança também se parece com o pensamento do rabino Jonathan Sacks. Não aceito “o status quo como vontade Divina”. Minha esperança é uma espécie de “fé, na qual Deus convida os seres humanos a se tornarem seus parceiros no trabalho da redenção, a construírem uma sociedade baseada na justiça e por todos percebida como tal“.
Portanto, a única esperança que acolho, resiste, semeia, fermenta, bate de frente com o sistema, advoga o direito das crianças, socorre os idosos, visita os encarcerados e devolve visão aos cegos.
Soli Deo Gloria.
Ricardo Gondim
sábado, 4 de outubro de 2008
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
A lei do Chico Brito
Chico Brito viveu não sei onde no Ceará. Ele deve ter sido um homem perverso, inclemente, rigoroso no cumprimento da lei. Quando eu era criança, a simples menção de seu nome me apavorava. Eu e meu irmão, Renato Jorge, éramos muito travessos; para nos disciplinar, papai e mamãe nos puniam com rigor, mas antes ameaçavam: “Agora os dois vão entrar na lei do Chico Brito”. Assim começavam as sessões de tortura, cada qual mais tenebrosa que a outra. Em nome do Chico Brito, apanhei de cinturão, fio elétrico e varinha de marmelo. O pior flagelo vinha com uma mangueira de plástico que pendia de um filtro de parede.
Dizem, não sei se verdade, que Chico Brito batia na prole todo dia, e se justificava com um argumento inconteste: “Eu espanco mesmo quando não sei dizer por quê; mas eles sabem a razão porque estão apanhando”.
Cruel, mas verdadeiro. Horrível, mas inegável. Meninos, adolescentes, jovens, sempre têm culpa no cartório. Hoje, depois que completei cinqüenta anos, descobri que adultos também são indesculpáveis.
Aprendi também que a lógica do Chico Brito serve de fuzil nas mãos dos religiosos. Já cansei de ouvir sacerdotes afirmarem: “Vocês são pecadores e devem se arrepender caso queiram ser poupados da ira de Deus e das maldições do diabo”. Sem medo de errar alguns apontam o dedo e arriscam uma condenaçãozinha extra: “Logo, logo, seus pecados lhe alcançarão; submeta-se ou se prepare para a maldição que vem sobre a casa, filhos e empresa dos desobedientes”.
Será mesmo que a mensagem de Jesus de Nazaré precisa de ambientes carregados de culpa? A mensagem cristã se confunde mesmo com a visão mórbida e pessimista da condição humana, que se disseminou na Idade Média? Não há como anunciar Jesus sem esse pessimismo antropológico que descreve a história humana como indigna, infeliz e caída?
A leitura agostiniana do pecado de Adão e Eva, somada à visão neo-platônica que cinde o ser humano em corpo e alma, acabou levando teólogos e filósofos a acreditarem que o corpo é mau e que a alma é boa. Para eles, a humanidade vive em guerra, querendo satisfazer os desejos da carne, que não passa de lama. E a humanidade está perdida porque se recusa a desejar a “coisas santas” (entenda-se por coisas santas, sacrifícios, penitências, sofrimentos). Como as pessoas precisam do corpo para viver, da libido sexual para se reproduzir e dos apetites para dar gosto ao dia-a-dia, a luta começa perdida. Sim, para alguns religiosos, a humanidade vem ao mundo debaixo de condenação; “todos réus da ira divina”.
Acontece que Jesus nunca foi discípulo do Chico Brito. Quando contemplou o sofrimento das multidões, o Nazareno disse: “Eu os vejo como ovelhas sem pastor” – Marcos 6.34. Cristo não titubeou quando declarou: “As meretrizes vão entrar no reino antes dos sacerdotes” – Mateus 21.31. E Paulo, muito citado para legitimar a dureza do juízo sobre os pecadores, escreveu que “a bondade de Deus é que leva alguém a querer mudar”. Romanos 4.2.
O evangelho é boa notícia não porque se resume a anunciar que Deus se dispôs a amar os desgraçados. A notícia alvissareira do Evangelho alardeia que Deus não trata a humanidade com ódio. Ele quer a todos como filhos queridos, apesar das inadequações e, até, das impiedades. Deus não é antipático. No dia do nascimento de Jesus, ouviu-se no céu uma retumbante declaração: “Glória a Deus nas alturas, paz na terra aos homens (e mulheres) a quem ele quer bem”.
Deus prefere abraçar a chicotear, beijar a rejeitar, perdoar a castigar. Ele é mãe e pai, irmão e amigo, ajudador e advogado.
A lei de Chico Brito pertence ao mundo dos perversos; Deus não é cruel. Meus pais, coitados, não eram malvados, apenas mal informados sobre educação infantil. Mas como avô e pastor de uma comunidade de fé, tenho a obrigação de não repetir os seus erros.
Soli Deo Gloria.
Ricardo Gondim
Dizem, não sei se verdade, que Chico Brito batia na prole todo dia, e se justificava com um argumento inconteste: “Eu espanco mesmo quando não sei dizer por quê; mas eles sabem a razão porque estão apanhando”.
Cruel, mas verdadeiro. Horrível, mas inegável. Meninos, adolescentes, jovens, sempre têm culpa no cartório. Hoje, depois que completei cinqüenta anos, descobri que adultos também são indesculpáveis.
Aprendi também que a lógica do Chico Brito serve de fuzil nas mãos dos religiosos. Já cansei de ouvir sacerdotes afirmarem: “Vocês são pecadores e devem se arrepender caso queiram ser poupados da ira de Deus e das maldições do diabo”. Sem medo de errar alguns apontam o dedo e arriscam uma condenaçãozinha extra: “Logo, logo, seus pecados lhe alcançarão; submeta-se ou se prepare para a maldição que vem sobre a casa, filhos e empresa dos desobedientes”.
Será mesmo que a mensagem de Jesus de Nazaré precisa de ambientes carregados de culpa? A mensagem cristã se confunde mesmo com a visão mórbida e pessimista da condição humana, que se disseminou na Idade Média? Não há como anunciar Jesus sem esse pessimismo antropológico que descreve a história humana como indigna, infeliz e caída?
A leitura agostiniana do pecado de Adão e Eva, somada à visão neo-platônica que cinde o ser humano em corpo e alma, acabou levando teólogos e filósofos a acreditarem que o corpo é mau e que a alma é boa. Para eles, a humanidade vive em guerra, querendo satisfazer os desejos da carne, que não passa de lama. E a humanidade está perdida porque se recusa a desejar a “coisas santas” (entenda-se por coisas santas, sacrifícios, penitências, sofrimentos). Como as pessoas precisam do corpo para viver, da libido sexual para se reproduzir e dos apetites para dar gosto ao dia-a-dia, a luta começa perdida. Sim, para alguns religiosos, a humanidade vem ao mundo debaixo de condenação; “todos réus da ira divina”.
Acontece que Jesus nunca foi discípulo do Chico Brito. Quando contemplou o sofrimento das multidões, o Nazareno disse: “Eu os vejo como ovelhas sem pastor” – Marcos 6.34. Cristo não titubeou quando declarou: “As meretrizes vão entrar no reino antes dos sacerdotes” – Mateus 21.31. E Paulo, muito citado para legitimar a dureza do juízo sobre os pecadores, escreveu que “a bondade de Deus é que leva alguém a querer mudar”. Romanos 4.2.
O evangelho é boa notícia não porque se resume a anunciar que Deus se dispôs a amar os desgraçados. A notícia alvissareira do Evangelho alardeia que Deus não trata a humanidade com ódio. Ele quer a todos como filhos queridos, apesar das inadequações e, até, das impiedades. Deus não é antipático. No dia do nascimento de Jesus, ouviu-se no céu uma retumbante declaração: “Glória a Deus nas alturas, paz na terra aos homens (e mulheres) a quem ele quer bem”.
Deus prefere abraçar a chicotear, beijar a rejeitar, perdoar a castigar. Ele é mãe e pai, irmão e amigo, ajudador e advogado.
A lei de Chico Brito pertence ao mundo dos perversos; Deus não é cruel. Meus pais, coitados, não eram malvados, apenas mal informados sobre educação infantil. Mas como avô e pastor de uma comunidade de fé, tenho a obrigação de não repetir os seus erros.
Soli Deo Gloria.
Ricardo Gondim
A Parábola da Bola
Os dez homens importantes sentados ao redor da bola discutiam acaloradamente:
– A bola é grená, disse um.
– Claro que não, a bola é bordô, retrucou outro em tom raivoso.
Todos estavam fascinados pela beleza da bola e tentavam discernir a cor da bola. Cada um apresentava seu argumento tentando convencer os demais, acreditando que sabia qual era a cor da bola. A bola, no centro da sala, calada sob um raio de sol que entrava pela janela, enchia a sala de uma luminosidade agradável que deixava o ambiente ainda mais aconchegante, exceto para aqueles dez homens importantes, que se ocupavam em defender seus pontos de vista.
– Você é cego?, ecoou pela sala gerando um silêncio que parecia ter sido combinado entre os outros nove homens importantes. Era até engraçado de observar a discussão – na verdade era trágico, mas parecia cômico. Todos os dez homens importantes usavam óculos escuros, cada um com uma lente diferente. Talvez por causa dos óculos pesados que usavam, um deles gritou “você é cego?”, pois pareciam mesmo cegos.
Depois do susto, a discussão recomeçou. O sujeito que acreditava que a bola era cor de vinho debatia com o que enxergava a bola alaranjada, mas um não ouvia o que o outro dizia, pois cada um usava o tempo em que o outro estava falando para pensar em novos argumentos para justificar sua verdade. Aos poucos, a discussão deixou de ser a respeito da cor da bola, e passou a ser uma troca de opiniões e afirmações contundentes a respeito das supostas cores da bola. A partir de um determinado momento que ninguém saberia dizer ao certo quando, os dez homens tiraram os olhos da bola e passaram a refutar uns ao outros. Em vez de sugestões do tipo: – A bola é vermelha, todos se precipitavam em listar razões porque a bola não era grená, nem cor de vinho, nem mesmo alaranjada.
De repente, alguém gritou: – Ei pessoal, onde está a bola? Todos pararam de falar – estavam todos falando ao mesmo tempo, e foi então que perceberam um alarido parecido com aquelas gargalhadas gostosas que as crianças dão quando sentem cócegas. Correram para a janela e viram uma criançada brincando com a bola, que parecia feliz sendo jogada de mão em mão. Ficaram enfurecidos com tamanho desrespeito com a bola. Ficaram também muito contrariados com a bola, que parecia tão feliz, mas não tiveram coragem de admitir, afinal, a bola, era a bola.
Lá fora, sem dar a mínima para os dez homens importantes, estavam as crianças brincando e se divertindo a valer com a bola que os dez homens importantes pensavam que era deles. E nenhuma das crianças sabia qual era a cor da bola.
Ed René Kivitz
– A bola é grená, disse um.
– Claro que não, a bola é bordô, retrucou outro em tom raivoso.
Todos estavam fascinados pela beleza da bola e tentavam discernir a cor da bola. Cada um apresentava seu argumento tentando convencer os demais, acreditando que sabia qual era a cor da bola. A bola, no centro da sala, calada sob um raio de sol que entrava pela janela, enchia a sala de uma luminosidade agradável que deixava o ambiente ainda mais aconchegante, exceto para aqueles dez homens importantes, que se ocupavam em defender seus pontos de vista.
– Você é cego?, ecoou pela sala gerando um silêncio que parecia ter sido combinado entre os outros nove homens importantes. Era até engraçado de observar a discussão – na verdade era trágico, mas parecia cômico. Todos os dez homens importantes usavam óculos escuros, cada um com uma lente diferente. Talvez por causa dos óculos pesados que usavam, um deles gritou “você é cego?”, pois pareciam mesmo cegos.
Depois do susto, a discussão recomeçou. O sujeito que acreditava que a bola era cor de vinho debatia com o que enxergava a bola alaranjada, mas um não ouvia o que o outro dizia, pois cada um usava o tempo em que o outro estava falando para pensar em novos argumentos para justificar sua verdade. Aos poucos, a discussão deixou de ser a respeito da cor da bola, e passou a ser uma troca de opiniões e afirmações contundentes a respeito das supostas cores da bola. A partir de um determinado momento que ninguém saberia dizer ao certo quando, os dez homens tiraram os olhos da bola e passaram a refutar uns ao outros. Em vez de sugestões do tipo: – A bola é vermelha, todos se precipitavam em listar razões porque a bola não era grená, nem cor de vinho, nem mesmo alaranjada.
De repente, alguém gritou: – Ei pessoal, onde está a bola? Todos pararam de falar – estavam todos falando ao mesmo tempo, e foi então que perceberam um alarido parecido com aquelas gargalhadas gostosas que as crianças dão quando sentem cócegas. Correram para a janela e viram uma criançada brincando com a bola, que parecia feliz sendo jogada de mão em mão. Ficaram enfurecidos com tamanho desrespeito com a bola. Ficaram também muito contrariados com a bola, que parecia tão feliz, mas não tiveram coragem de admitir, afinal, a bola, era a bola.
Lá fora, sem dar a mínima para os dez homens importantes, estavam as crianças brincando e se divertindo a valer com a bola que os dez homens importantes pensavam que era deles. E nenhuma das crianças sabia qual era a cor da bola.
Ed René Kivitz
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
Superando Expectativas
1500 acessos.
Começamos esse blog de maneira despretensiosa, como um "vomitório" de idéias mesmo... mas nesse meio tempo, nos encontramos com nós mesmos. Redescobrimos coisas que sabíamos mas não lembrávamos mais, enquanto descobrimos outras completamente novas.
Descobrimos também irmãos e amigos que pensam como nós, que choram e sofrem com a realidade do que deveria ser Igreja e só consegue ser "igreja". É um refrigério para nossa alma ver que a loucura que foi, é e será sempre o evangelho ainda é defendida com convicção.
Somos gratos pela sua leitura, pelo seu carinho, pelo seu comentário e pela sua visita.
Gratos somos também ao Sérgio Pavarini que nos linkou e trouxe muita gente ao blog e a fofíssima Fernanda por ter nos indicado ao prêmio Dardos.
Big abraços
Começamos esse blog de maneira despretensiosa, como um "vomitório" de idéias mesmo... mas nesse meio tempo, nos encontramos com nós mesmos. Redescobrimos coisas que sabíamos mas não lembrávamos mais, enquanto descobrimos outras completamente novas.
Descobrimos também irmãos e amigos que pensam como nós, que choram e sofrem com a realidade do que deveria ser Igreja e só consegue ser "igreja". É um refrigério para nossa alma ver que a loucura que foi, é e será sempre o evangelho ainda é defendida com convicção.
Somos gratos pela sua leitura, pelo seu carinho, pelo seu comentário e pela sua visita.
Gratos somos também ao Sérgio Pavarini que nos linkou e trouxe muita gente ao blog e a fofíssima Fernanda por ter nos indicado ao prêmio Dardos.
Big abraços
O Que é Importante ?
Mostra-me, então, a tua “pregação” e a “tua igreja” sem amor, e, eu, sem “igreja” e sem “pregação”, com amor, te mostrarei a Pregação e a Igreja.
É um privilégio conhecer o Evangelho quando se o vive. Mas é uma desgraça saber dele para não vivê-lo, embora se admita a sua verdade.
Jesus disse que muitas “obras missionárias” podem ser atividades do diabo e do inferno!
Ele disse isto quando afirmou que os fariseus rodeavam o mundo querendo “clonar pessoas” à sua imagem e semelhança farisaica, tornando-as, por tal razão, duas vezes mais filhas do inferno do que eles mesmos [Mt 23].
Isto aconteceu milhões de vezes na história e está acontecendo hoje, aos milhões também, que é quando a pessoa era melhor antes de virar “cristã”.
Gente ruim, quando se “converte”, tende a ficar muito pior depois de um tempo, especialmente quando vêem na “hipocrisia” dos outros o álibi perfeito para fazer a maldade sob o manto da piedade.
Entretanto, já vi muita gente boa e simples ser enfeiada pela suposta “conversão”. É quando a religião chega para dar cabo das espontaneidades da vida sem religião, mas que era pura no exercício do amor, conforme a luz que se tinha.
É por isto que qualquer que seja a experiência com a “informação do evangelho” que não se faça acompanhar de fé, põe o individuo exposto à “informação” em estado muito pior do que o anterior. Pedro diz que é como a porca que volta à lama e o cão ao vômito.
Pouca gente sobrevive à tentação de apenas amar amando ante a “tranqüilidade” advinda da falsa segurança de fazer parte do “grupo que diz amar”.
É assim que as doutrinas e credos são criados. É assim que os concílios são inventados. É assim que organizações de amor são geradas. É assim que éticas são desenvolvidas e discutidas. É assim que uns se tornam melhores do que outros aos seus próprios olhos. É assim... — que tudo fica assim...
Para muitos o que digo é uma super-redução. Mas para quem sabe o que amor é, mesmo que seja um Forrest Gump, o que digo diz tudo o que importa na vida e aos olhos Daquele que vê.
Nele, que é apenas Amor,
Caio
8 de julho de 2008
Lago Norte
Brasília-DF
É um privilégio conhecer o Evangelho quando se o vive. Mas é uma desgraça saber dele para não vivê-lo, embora se admita a sua verdade.
Jesus disse que muitas “obras missionárias” podem ser atividades do diabo e do inferno!
Ele disse isto quando afirmou que os fariseus rodeavam o mundo querendo “clonar pessoas” à sua imagem e semelhança farisaica, tornando-as, por tal razão, duas vezes mais filhas do inferno do que eles mesmos [Mt 23].
Isto aconteceu milhões de vezes na história e está acontecendo hoje, aos milhões também, que é quando a pessoa era melhor antes de virar “cristã”.
Gente ruim, quando se “converte”, tende a ficar muito pior depois de um tempo, especialmente quando vêem na “hipocrisia” dos outros o álibi perfeito para fazer a maldade sob o manto da piedade.
Entretanto, já vi muita gente boa e simples ser enfeiada pela suposta “conversão”. É quando a religião chega para dar cabo das espontaneidades da vida sem religião, mas que era pura no exercício do amor, conforme a luz que se tinha.
É por isto que qualquer que seja a experiência com a “informação do evangelho” que não se faça acompanhar de fé, põe o individuo exposto à “informação” em estado muito pior do que o anterior. Pedro diz que é como a porca que volta à lama e o cão ao vômito.
Pouca gente sobrevive à tentação de apenas amar amando ante a “tranqüilidade” advinda da falsa segurança de fazer parte do “grupo que diz amar”.
É assim que as doutrinas e credos são criados. É assim que os concílios são inventados. É assim que organizações de amor são geradas. É assim que éticas são desenvolvidas e discutidas. É assim que uns se tornam melhores do que outros aos seus próprios olhos. É assim... — que tudo fica assim...
Para muitos o que digo é uma super-redução. Mas para quem sabe o que amor é, mesmo que seja um Forrest Gump, o que digo diz tudo o que importa na vida e aos olhos Daquele que vê.
Nele, que é apenas Amor,
Caio
8 de julho de 2008
Lago Norte
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