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sábado, 21 de fevereiro de 2009

Elogio ao livre pensador

O livre pensador pensa com liberdade. Óbvio. Para ele, as fronteiras do certo e do errado têm a ver com integridade, nunca com a assimilação de lógicas pré assentadas. Permite, inclusive, que puxem o tapete de suas antigas afirmações. Não provoca o debate pelo debate, tensiona as convicções por amor à sabedoria. Despretencioso, não hesita contradizer-se. Ri até de posturas que assumiu.


O livre pensador prefere a selva à trilha batida, o labirinto aos mapas detalhados, a senda escura à avenida iluminada. Convive bem com a verdade infinita. Encara o saber como galáxia cheia de luminares inalcançaveis, a trilhões de anos luz. É golfinho que brinca no oceano das idéias.

O livre pensador garante a boa companhia. Ouve, acolhe, indaga e argumenta com a singeleza das crianças. Discute, retruca, provoca e exige com o rigor dos mestres. Denuncia, confronta e briga com a veemência dos profetas. Narra, brinca, ri e cria com a leveza dos poetas. É exigente nos colóquios acadêmicos, mas zombeteiro na mesa do bar; atencioso entre os opositores, mas instigante entre os amigos.

O livre pensador quebra paradigmas científicos, inaugura escolas literárias, revoluciona parlamentos, mobiliza militâncias. Morre, todavia, na fogueira da religião.

Soli Deo Gloria

Quem ? Ricardo Gondim !

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

O caminho mais fácil

Seria tão mais fácil calar que expor; dissimular que enfrentar; concordar que questionar. Eu sinceramente prefiro a calma à turbulência; a alienação à contestação; a paz à tensão. Desisto. Não me entendo, não me explico. Sinto um formigão e me lanço afoito ao debate das idéias. Talvez, imagine encontrar magnanimidade, grandeza humana.

Seria tão mais fácil não balançar o barco e navegar em águas tranqüilas (meu corretor não abre mão do trema). Concordo, não se deve corrigir o rei. Admito, não se questiona o que foi posto como absoluto. Reconheço, não se constrange a maioria.

Seria tão mais fácil deslizar para a aposentadoria como uma unanimidade. Melhor deitar na fama do mito. Sim, a arte de forjar uma personagem não exige muito. Representar bem não é complicado. Desempenhar de acordo com as expectativas da multidão vem com poucos ensaios. Os cacoetes grudam na pele e a gente acaba cumprindo qualquer roteiro.

Seria tão mais fácil seguir o caminho já trilhado. Não sei porquê, fui para a contramão. Sem programar, acabei remando rio acima. Fiz escolhas dolorosas. Aliei-me aos marginais. Pousei na periferia. Tropecei na fronteira do pensamento ortodoxo. Espiei por cima do muro do consenso. Acabei exilado.

Tudo era fácil. Agora tenho que explicar-me para quem me quer bem. Tenho que sofrer com as inquietações de quem me engolia seco. Tenho que lidar com as deserções de quem suspeitava de mim.

Seria tão mais fácil descer a ladeira. Mas eu precisaria rachar por dentro e conviver com um impostor parecido comigo. Não tenho escolha. Obriguei-me a conviver com as minhas dificuldades. Morrerei abraçado comigo mesmo.

Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim


sábado, 24 de janeiro de 2009

Dois lados da mesma mensagem

Bem aventurados os pobres de espírito, pois deles é o reino dos céus. Malditos os prepotentes, pois eles criam o império do ódio. Os que precisam da força para sustentar o poder não tem parte com a lógica do amor.

Bem aventurados os que choram, pois serão consolados. Malditos os indiferentes, pois neles nasce o cinismo. Secos, descartam vidas. Desdenhosos, não sofrem o abandono dos esquecidos, a angústia dos escravos, o desespero dos oprimidos.

Bem aventurados os humildes, pois eles receberão a terra por herança. Malditos os altivos, pois eles se acham livres para agrilhoar, agridem sem contenção e receberão uma masmorra por herança.

Bem aventurados os que tem fome e sede de justiça, pois serão fartos. Malditos os que buscam argumentos para justificar tiranias; os que se fiam em coerências para vexar os indefesos padecerão sedentos e famintos de bondade.

Bem aventurados os misericordiosos, pois obterão misericórdia. Malditos os implacáveis, pois serão medidos com a mesma inflexibilidade que trataram os outros; cedo ou tarde receberão castigo proporcional à sua irrepreensibilidade.

Bem aventurados os puros de coração, pois verão a Deus. Malditos os astuciosos, pois morrerão sós. O falso não se alinha ao coração divino, o aleivoso perde o compasso do universo; o impostor não arranca a venda dos olhos e se condena a nunca perceber o sublime.

Bem aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus. Malditos os que conspiram a guerra; que dão de ombros para o bombardeio assimétrico, para a agressão descomedida, para a morte de crianças e velhos. Esses descerão ao mais profundo inferno, pois arrasam vilas, dizimam etnias, e chacinam em nome do Estado.

Bem aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o Reino dos céus. Malditos os tiranos, que afligem para defender ideologia ou religião, raça ou economia. Deus se alia ao afrontado, oferece a mão ao desabrigado e faz companhia ao esmagado.

Bem aventurados serão vocês quando, por minha causa os insultarem, os perseguirem e levantarem todo tipo de calúnia contra vocês. Malditos serão vocês que voam como abutres, para espreitar a derrocada do pequeno; que se excitam com más novas; e só deduzem o pior nas intenções alheias.

Alegrem-se e regozijem-se, porque grande é a sua recompensa nos céus, pois da mesma forma perseguiram os profetas que viveram antes de vocês. Lamentem e agonizem, porque grande será o castigo no calabouço eterno, vocês terão o mesmo destino que os facínoras que viveram antes de vocês.

Soli Deo Gloria.

Texto do Ricardo Gondim.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Aprenda a sofrer

Amigo, entre de cabeça na sua dor. Aceite que é ruim. Não tente disfarçar.Desocupe a mente e viva o seu sofrimento. Evite o bar. Fuja dos conselheiros. Soluce, choromingue, ruja, mas não armazene agonia.

Amigo, esperneie, grite, teatralize, mas não continue a engolir seco. Converse com as estrelas, contemple os precipicios. Afunde-se em fossas. Rememore seus momentos tristes. Não limpe as lágrimas. Jejue, rasgue véus. Deixe a barba por fazer.

Amigo, corra até a exaustão, enfrente a sua mágoa. Tranque-se para encarar o seu fracasso. Recolha-se para abraçar a sua derrota. Volte o rosto contra a parede. Ajoelhe-se. Vista-se de saco e se sente sobre um monte de cinza. Raspe a cabeça. Descalce os pés. Contrate um taxi, por duas horas vagueie à deriva. Desassossegue com sonetos. Escute fado.

Amigo, repita silenciosamente: “Cordeiro de Deus, que sofreste na cruz, tem misericórdia de mim”. Caminhe cabisbaixo, ria pouco. Entre numa catedral vazia e ouça o silêncio. Considere a sina de quem nunca viu a luz. Visite uma escola para crianças com síndrome de Down. Ajude os AA’s. Doe para a clínica que reabilita toxicômanos.

Amigo, Deus desceu do céu, tabernaculou entre os homens, e sofreu como você. Ele teve um filho sem pecado, mas nenhum sem sofrimento. Deus consola. Ele sabe o que é ficar sem chão. Soletre esperança como obstinação e fé como coragem. Trinque os dentes e prossiga.

Soli Deus Gloria.

Do conterrâneo Ricardo Gondim.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Perdas e ganhos

Perdi a fé. Sem qualquer constrangimento, sem medo, saio do armário e confesso publicamente: Perdi a minha fé. Estou consciente que hei de constar no fichário condenatório do Santo Ofício. Corro o risco de ser torturado no garrote gospel.

Receberei inúmeras advertências. Minha caixa postal vai se entupir com mensagens de gente decepcionada. Serei aconselhado a não destruir o meu “futuro promissor”; vão lembrar-me do fogo do inferno, reservado para quem retrocede. Mas não há muito o que fazer, não planejei perder a fé.

Caminhei pelos porões escuros da humanidade. Conversei com pessoas carbonizadas no fogo do sofrimento. Vi crianças subnutridas, sem força sequer de sugar o peito mirrado da mãe. Li uma tonelada de tratados teológicos que tentavam explicar o sofrimento universal. Ouvi um sem-número de sermões sobre a condição humana. Temi os castigos eternos e aprendi sobre os meios que conduzem ao perdão divino. Entretanto, pouco a pouco, vi-me desgostoso com explanações, que julgava simplórias - a princípio, apenas antipatias. Depois, passei a rejeitar o que as pessoas chamavam de fé. Por fim, conscientizei-me que simplesmente não era mais condômino do edifício onde residiam muitos religiosos.

Perdi a fé em um Deus que precisa de pilha para mover o braço. Deixei de acreditar que a “Duracell” que faz Deus “funcionar” seja a fé. No passado, eu procurei mostrar à Deus toda a minha sinceridade. Eu acreditei, piamente, que, caso conseguisse acabar com a dúvida ou hesitação, seria testemunha ocular de grandes prodígios. Jejuei para mortificar a mente; eu precisava calar as minhas inquietações. Certa vez, ao lado do leito de morte de um amigo, chorei desesperadamente; não pelo amigo que agonizava, mas por mim. Eu sabia que, por mais que tentasse, nunca conseguiria demonstrar uma fé inabalável. Meu amigo morreu e eu carreguei por muito tempo, a culpa dele não ter sido curado.

Perdi a fé em um Deus que recusa atender qualquer petição enquanto não houver santidade total. Diziam-me que Deus só ouve os “vasos” puros. Um pensamentos furtivo era suficiente para eu me sentir um lixo humano. Imaginava os difíceis graus de devoção e pureza necessários para eu poder “reivindicar” uma bênção. Vi que jamais teria acesso à bondade divina porque as minhas penitências nunca foram suficientes. Como nunca fui devidamente alvo, minha imperfeição me condenava; um pastor sem milagres, portanto, desqualificado.

Perdi a fé em um Deus que só opera nas micro-realidades. Eu acreditava que Deus intervém pontualmente, isto é, focado e restrito às complicações e necessidades de pessoas. Mas eu não me sentia inquieto. Sequer perguntava: por que essa mesma fé intervencionista não serve para resolver, por milagre, as desgraças que assolam nações e continentes? Ora, se Deus abre uma porta de emprego para um indivíduo, porque não reverte com uma simples ordem, a crise econômica que desemprega milhões?

Perdi a fé em um Deus discriminatório. Já não consigo acreditar em um Deus que pinça alguns para premiar com milagre, mas deixa muitos outros a ver navios. Não faz sentido aplicar a lógica dos bingos e das loterias nos espaços religiosos - para cada sortudo sobram milhões de azarados. Se há razões misteriosas para Deus agir assim, e ninguém pode questionar; se ele trabalha no escuro e a vida é um tapete trançado que só faz sentido do lado da eternidade, então só resta à humanidade seguir os trilhos do destino. Fé não passa de uma mera submissão à bitola do que já foi providencialmente traçado por Deus.

Perdi a fé, mas não sou incrédulo.

Ganhei uma nova fé que celebra a imanência de Deus. Agora percebo que Deus não está longe, mas vive em nós e entre nós. Seu nome é Emanuel, o Deus conosco. Ele está mais próximo que nosso hálito, mais entranhado que nossa medula e mais íntimo que nossos pensamentos. E fez o seu tabernáculo no coração dos homens e das mulheres.

Ganhei uma fé que bendiz a compreensibilidade de Deus. Ele não mede nossa inadequação com critérios tão rigorosos que precisaríamos nos transformar em anjos. Como pai, Deus não leva em conta as nossas transgressões, pois se lembra que somos pó. Deus não rejeita, mas perdoa. Sua pedagogia é libertadora.

Ganhei uma fé que não espera por intervenções de Deus. Minha fé virou uma aposta: Creio que os valores do Reino são suficientes para que eu atravesse a vida sem perder a alma. Minha fé possui uma convicção: Jesus é o modelo digno de ser imitado. Estou certo que seguindo as suas pegadas serei justo, solidário e realizado.

Ganhei uma fé que não tem a expectativa de favoritismo. Busco a mesma atitude de Moisés que, diante da possibilidade do povo não entrar na terra prometida, disse: “Se eles não entrarem, risca o também o meu nome do livro da vida”. Antes de ser brindado por qualquer dádiva, espero que as crianças famintas do Congo, Darfur e sertão cearense, tenham água, comida, roupa, educação e muitos brinquedos.

Estou feliz pela fé que perdi, mas esfuziante com a nova fé que ganhei.

Soli Deo Gloria.

Texto do sempre querido (por nós) e muito odiado (por muitos outros) conterrâneo Ricardo Gondim.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Cristianismo sem Jesus

Desde a adolescência, organizei minha vida com valores religiosos. Freqüentei e lecionei em escolas dominicais. Militei em grupos de jovens cristãos. Estudei em um instituto bíblico. Conheci bem os bastidores do mundo religioso, tanto no Brasil como nos Estados Unidos.

Sincero e zeloso, sempre procurei cumprir as exigências de todas as instituições que participei. Se a igreja não permitia as mulheres cortarem o cabelo, briguei com a minha por aparar as franjas; se era pecado ir ao cinema, eu, que não aceitava essa proibição absurda, para evitar mau testemunho, viajava para longe se queria ver algum filme.

Relevei disparates, incoerências e hipocrisias eclesiásticas, porque considerava a causa de Cristo mais importante que as pessoas. Para não “escandalizar”, fazia vista grossa para comportamentos incompatíveis com a mensagem cristã.

Abraçado às instituições, acabei conivente de mercenários, alguns intencionalmente cobiçosos. Justifiquei tolices argumentando que as pessoas eram minimamente sinceras. Nem sei como me iludi a ponto de dizer: “fulano faz bobagem, muita bobagem, mas é sincero”.

Cheguei a um tempo de vida, que algumas reivindicações da religião perderam o apelo. Com tantas decepções, deixei de acreditar na pretensa santidade dos religiosos. Considero piegas as pregações de que Deus exige uma santidade perfeita. Lembro imediatamente dos malabarismos que testemunhei que tentavam falsear tantas inadequações, dos jogos de esconde-esconde para não expor demagogias.

Jesus não conviveu com gente muito certinha. Ao contrário, ele os evitava e criticava. Chamou os austeros sacerdotes de sepulcros caiados, de cegos que guiam outros cegos, de hipócritas e, o mais grave, de condenarem os prosélitos a um duplo inferno. Cristo gostava da companhia dos pecadores, que lhe pareciam mais humanos.

Jesus alistou pessoas bem difíceis para serem apóstolos; Pedro era tempestivo; Tomé, hesitante; João, vingativo; Filipe, lento em compreender; Judas, ladrão. Acostumado com os freqüentadores de sinagoga e com os doutores da Lei, por que ele não buscou seguidores nesses círculos? Talvez, não entendesse santidade e perfeição como muitos.

Jesus aceitou que uma mulher de reputação duvidosa lhe derramasse perfume; elogiou a fé de um centurião romano, adorador de ídolos; não permitiu que apedrejassem uma adúltera para perdoá-la; mostrou-se surpreso com a determinação de uma Cananéia; prometeu o paraíso para um ladrão nos estertores da morte. Sabedor das exigências da lei, por que Jesus não mediu esforços ou palavras para enaltecer gente assim? Talvez, não entendesse santidade e perfeição como muitos.

Para Jesus, santidade não significava uma simples obediência de normas. Para ele, os atos não valem o mesmo que as intenções. Adultério não se restringe a sexo, mas tem a ver com valores que podem ou não gerar uma traição.

O ódio que explode com ânsias de matar é mais grave do que o próprio homicídio. Para ele, portanto, pecado e santidade fazem parte das dimensões mais profundas do ser humano. Lá, naquele nascedouro, de onde brotam os primeiros filetes do que se transformará em um rio, forma-se o caráter. E santidade depende da estrutura do ser, com índole que gera as decisões.

Para Jesus, santidade se confunde com integridade; que deve ser compreendida como inteireza. As sombras, as faltas, as inadequações, os defeitos, bem como as luzes, as bondades, as grandezas, as virtudes, de cada um precisam ser encaradas sem medos, sem panacéias, sem eufemismos.

Deus não requer vidas perfeitinhas, pois ele sabe que a estrutura humana é pó; não exige correção absoluta, pois para isso, teria que nos converter em anjos.

As prostitutas, que souberem lidar com faltas e defeitos com inteireza, precederão os sacerdotes bem compostos, mas que vivem de varrer as faltas para debaixo dos tapetes eclesiásticos. O samaritano, que traduziu humanidade em um gesto de solidariedade, é herói de uma parábola que descreve como herdar o céu. O tempestivo Pedro, que transpirava sinceridade, recebeu as chaves do Reino de Deus. A mulher, que fora possessa de sete demônios, anuncia a alvissareira notícia da ressurreição.

Os mandamentos e a lei só serviram para mostrar que para produzir humanidade não servem os legalismos. Integridade e santidade nascem do exercício constante de confrontar suas luzes e sombras trazendo-as diante de Deus e mesmo assim saber-se amado por Ele.

Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim, no texto pecadores sem maldição.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Os Meus Extremos.

Minha vida é pêndulo. Oscilo entre o bem que desejo e o mal que rechaço. Sei que minhas sombras não são todas ruins e minhas luzes não são todas boas.

Minha vida é sístole e diástole, fluxo e refluxo. No vai-e-vem de minhas emoções choro e rio, fico e vou. Não receio mostrar covardia e hesito nas coragens.

Minha vida é dança na encosta do abismo. Prestes a despencar, no limite do perigo, corro o risco de tornar-me o fiasco do milênio. Mesmo assim, jogo e aposto atrevidamente. Mesmo sabendo que posso ferir-me, enfrento a corda bamba.

Minha vida é estrada esburacada. Nos solavancos das crateras que se abriram pelo caminho, tento aprumar-me. Não quero perder a direção. Vou por trilhas menos pavimentadas, mas vez por outra, cansado, prefiro cortar caminho.

Minha vida é simultaneidade de satisfação e fome. Os desejos cumpridos deixam sobra, um resíduo, de desprazer. Porém, por mais que as inadequações se mostrem onipresentes, celebro contente a minha sorte.

Minha vida é, ao mesmo tempo, vitrine e caverna. Convivo com plataformas e microfones. Falo para platéias. Sou fascinado por silêncios, por alcovas. Audaz com multidões e tímido com pessoas, opto por poucas palavras. Mas, dou a mão à palmatória, falo pelos cotovelos.

Minha vida é mescla de certeza e imprecisão. As dúvidas não me abalam, mas as certezas me confundem. Gosto de questionar e não tenho medo de ficar sem resposta. Os absolutos me incomodam, os dogmas me inquietam, as exatidões me deixam suspeitoso.

Minha vida é ameaça e bênção. Consciente dos ódios que já provoquei, vivo inseguro; sempre procurando redenção. Entusiasmado com a bênção que sou, alço o vôo da águia; sempre ousando novos desafios.

Minha vida é mistura de morbidez e sede de viver. Aguardo o apagar das luzes, reconheço a iminência do meu fim. Contudo, procuro desdobrar os minutos em “nano-frações” de felicidade.

Minha vida é preocupação despreocupada. Temo as contingências, mas o insólito me entusiasma . Repito aos quatro ventos que dores e alegrias entram na fabulosa receita desta existência, que o Criador projetou livre. Não há nada mais deslumbrante que a angústia, e nada mais surpreendente que a felicidade.

Soli Deo Gloria.
Ricardo Gondim


Sempre, sempre e sempre bem vindo ao solo sagrado do meu coração.