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segunda-feira, 20 de abril de 2009

Você tem essa coragem?




[...] Ora, quando se olha para os evangelhos, e se sabe que em Jesus estava a Interpretação da Palavra — não apenas em Suas palavras, mas em tudo o que fazia —, vê-se, por simples comparação, a quantidade enorme de fabricações humanas acerca de “Deus”, de “Jesus”, da “Igreja”, da “Bíblia”, da “Eclesiologia”, da “Escatologia”, da “Sotereologia”; e de um monte de coisas tidas como “sagradas”; mas que nada mais são do que construções humanas, e que ganharam o peso de “interpretação autorizada”. Ora, é por essa “cartilha-catecismo-humano”, que tem-se que enxergar Deus, Jesus, a Verdade, e qualquer outra coisa; posto que, supostamente, fora dessa câmara de pensamentos feitos “divinos” por reis e teólogos-filósofos a serviço dos principados humanos — com seus muitos e variados interesses de poder, e que, pela ignorância ou pela mera insegurança pagã nos possuíram a alma —, nada se pode crer ou saber; visto que tais “santas produções”, ganharam no coração da maioria o status de “sã doutrina”. Assim, tem-se a Escritura; porém, mesmo que se mande que se a leia em casa, não se permite que tal liberdade vá além da leitura do livro, de modo mágico, devocional (na melhor das hipóteses); pois, de fato, é somente o “interprete credenciado” pela oficialidade religiosa quem, alegadamente, de fato sabe o que Deus disse ou não; e isto sempre conforme o “Jesus” criado pelos homens; e à semelhança do Messias construído no imaginário dos judeus dos dias de Jesus; a ponto de que até os Seus discípulos guardaram as “certezas antigas” de triunfo-messiânico-imediato, conforme a religião; apesar de Jesus lhes haver dito que AGORA não seria assim. Este é o poder devastador e frustrante de tais produções, quando tomam o lugar da Palavra em nós.

Gostaria que você se perguntasse o quanto do que você pensa que sabe e crê do ou no Evangelho, é algo que vem direto da interpretação da Palavra vista em Jesus por você; e o quanto é fruto da “invenção de Cristo”, conforme os dogmas e doutrinas da religião.

Você tem essa coragem?

Via Blog do Caminho !

quinta-feira, 16 de abril de 2009

É VOCÊ UM PAGÃO QUE ADORA O “JESUS/IGREJA”?

Na mente dos cristãos uma das maiores dificuldades é entender por que Jesus é de um modo e a igreja de outro completamente diferente Dele.

Quando tal “diferença” aparece na pratica diante do crente, em geral ele pensa que Jesus era como os evangelhos nos contam, mas que agora Ele se tornou como a “igreja”.

Ou seja: Jesus teria se deconvertido de Sua Graça e Amor e se tornado “cristão”.

Sim! Cristo virou apenas um grande Cristo, um Cristo Grandão; literalmente um “Cristão”.

Ora, o hibrido “Jesus/Igreja” é o “Deus misto” da maioria dos cristãos. E é bem grandão, pois, crêem de fato Jesus virou um Cristão.

Assim, se não há sublimidade em tal “Sagrado Hibrido”, também não há muita inspiração que demande que a existência transcenda o que os homens chamam de “minha vida”.

Desse modo, tal “Jesus/Igreja” é amado pelos crentes com a fidelidade de quem ama a Jesus mesmo, porém, devotando tal amor a um ente que é, muitas vezes, a total negação do que Jesus diz que vale o nosso amor.

Os “sacerdotes” da “religião de Jesus”, o Cristianismo, precisam que os crentes amem a “igreja” com o amor com o qual só deveriam amar a Jesus, e a nada mais.

E por que eles precisam que seja assim?

Ora, é que na “igreja” os “sacerdotes/pastores” se tornam os “Jesuses” dos crentes, posto que na falta de Jesus na “igreja”, é do “sacerdote” que vem a oferta de amor pessoal; ou seja: amar e reverenciar o “sacerdote” é como amar e servir a Jesus.

Tal possibilidade, todavia, não é fácil para todos; pois, poucos têm intimidade com o “Jesus” da “igreja”: o sacerdote. Desse modo, para os “demais” sobra o “átrio dos gentios”, que é a atividade na “igreja”.

O “Jesus” da “igreja”, o “sacerdote/pastor”, diz que seus objetivos de expansão e crescimento são projetos de Jesus para a Igreja. E, assim, o “Jesus/sacerdote” da “igreja” ganha o poder da cruz e da ressurreição a fim de motivar os crentes a trabalharem pelo Baú da Felicidade que o “Jesus/sacerdote” definiu como projeto de parceria com Deus.

É tudo tão perverso e tão obvio que somente apelando para o diabo se pode entender tal cegueira na mente dos crentes!

Se você é um dos “sacerdotes/pastores” que vive do engano ensinado e praticado por você, abra mão disso hoje. Ainda é tempo de deixar de ser bruxo desse paganismo perverso feito em nome de Jesus, como algo que o representa, mas que é o pior engano do diabo no mundo e o maior inimigo do Evangelho na Terra.

Se você é dos enganados seguidores, olhe para Jesus, segundo o Evangelho, ame-o de todo o coração, sirva-o, ame os que confessam o Seu nome e também até mesmo os que odeiam o Seu nome. No entanto, deixe de tentar amar e seguir a Jesus nesse caminho humano e hibrido, no qual se tem coisas do Jesus do Evangelho apenas como isca; sendo que o restante é mandamento e megalomania do “Jesus/sacerdote”, o qual é segundo a imagem e semelhança do “Jesus/Igreja”, que é uma besta de muitas denominações e cabeças, e com ofertas para todos os gostos de pagãos.

É fácil saber se digo a verdade. Basta ler os evangelhos e ver se falo do Jesus ali descrito ou se falo do Jesus criado para ser seguido enquanto se odeia e se vive a morte como salvação, segundo o desevangelho do “Jesus/Igreja”.

Eis meu desafio a você:

Leia o Evangelho de Jesus e depois me julgue como bem entender!

Você tem essa coragem?

Quem me dera você a tivesse!

Nele,

Caio

2 de janeiro de 2009

Logo Norte

Brasília

DF

Obs: quem vive onde vivemos, quem passou pelas coisas que nós passamos, sabe o quanto é verdadeiro esse texto. Se você acha um exagero, das duas uma: ou você está imerso nessa realidade sufocante até a alma, e não se percebe mais nesse contexto, ou você vive em uma comunidade-igreja tão leve que te aliena para esses tipo de males externos; mas creia, eles existem... mesmo no segundo caso, ele se manifesta. Se não em totalidade, parcialmente nos corações de alguns. Minha oração é para que, em nome do Evangelho, possamos conscientizar e denunciar, com o anúncio da própria boa-nova que é Jesus, esse tipo de comportamento.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

É Cristã a Igreja Evangélica?

Segue abaixo resenha de livro contida no Cristianismo Hoje, direto do site do Thiago Mendanha:

Livro questiona a verdade cristã presente nas igrejas, abalada pela institucionalização excessiva.

É Cristã a Igreja Evangélica?
Magno Paganelli
104 páginas
Arte Editorial

Desde os primeiros séculos da história do cristianismo, inicialmente movimento leigo a partir dos ensinamentos de Jesus e de suas manifestações, a Palavra foi incorporada pelo domínio do clericalismo e do Estado Romano (séc.IV) para tornar-se religião oficial do Estado. Após o movimento protestante, na Europa dos séculos XVI e XVII, surge o Protestantismo como religião oficial de vários Estados europeus. E assim tem sido até o cenário eclesiástico atual: a história da Igreja se confundido com uma história de institucionalização.

O livro de Magno Paganelli discute o problema gerado por essa institucionalização exacerbada que, muitas vezes, extrapola o apoio na transmissão dos ensinamentos da Palavra em prol de interesses próprios, fazendo com que se percam os princípios genuínos cristãos. Dessa forma, vê-se a construção de “impérios pessoais“ em detrimento da missão das Igrejas em tomar a frente na construção do Reino de Deus.

Magno também retrata as divergências das interpretações da Palavra que tem levado a posturas errôneas de fiéis e autoridades religiosas diante do adequamento as regras estabelecidas pelas diferentes congregações.

Chama a atenção para a importância e necessidade de nos avaliarmos em nossas condutas e não perdermos de vistas que somos o “povo do livro” (A Bíblia), todos nós, padres, pastores, cristãos, evangélicos, protestantes, fiéis, etc.

Magno, entretanto, evidencia que sua obra não encerra o propósito de crítica à Igreja no Brasil, tão pouco ganha espaço por meio de revelações polêmicas, antes, seu trabalho representa uma “dividia impagável com o Corpo de Cristo” e um compromisso com a verdade, para o bem comum.

Claramente ele faz uma leitura de três áreas da vida da Igreja brasileira, a saber: 1- O rigor tomado pela Igreja, com base na tradição, que tem sobrepujado as Escrituras; 2- O domínio de propriedades da Igreja e da sua geografia, por “donos” que detém setores e constroem “impérios pessoais”; e 3- A fé, como objeto principal da Igreja e da religião cristã, discutindo como ela tem sido sustentada e transmitida por quem ensina e prepara nos meios religiosos.

A igreja é temporal e, por isso, passageira, até que Jesus venha novamente. Assim, Magno nos deixa em seu livro a mensagem de que a Palavra deve ser a pedra fundamental em nosso modo de dirigir a vida e sempre devemos voltar-nos a Ela.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

A IGREJA QUEBRA GALHO DA VIDEIRA

Jesus disse que Ele está para nós assim como a Videira está para os ramos.



Sem videira todo ramo é pedaço de pau e somente isto.



Sim! É madeira morta, boa para ser queimada.



Os cristãos, no entanto, foram enganados e deixaram-se enganar, pois,
desde que se determinou que "fora da igreja não há salvação", que a
Videira passou a ser a "igreja", e, também, desde então, o Agricultor,
que, segundo Jesus é o Pai, entre os cristãos é o Pastor, ou, em alguns
grupos, o Corpo de Doutrina pelo qual se faz a "poda" de membros.



Assim, para o crente, "permanecer em Jesus", [João 15], é permanecer
firme na "igreja", freqüentando, participando e se submetendo a tudo.



Do mesmo modo, "dar fruto", segundo os crentes e suas emoções
condicionadas por anos de engano religioso, é evangelismo como programa,
é acampamento como devoção, é célula de crescimento, é cantar no grupo
de louvor, é ir à reunião de oração, e, sobretudo, é dar o dízimo em dia.



E o mandamento de amar uns aos outros é algo que os crentes entendem
como amar os que são iguais a eles enquanto os tais não ficarem
diferentes. Nesse dia eles viram desviados.



Ainda no mesmo andar de engano, os crentes pensam que "ser lançado fora"
da Videira é ser disciplinado pelo Agricultor Pastoral ou pelo Conselho
de Agricultura que aplica o Corpo de Doutrinas disciplinadoras e
excludentes, aos quais supostamente não se equivocam ao separar o joio
do trigo no campo do mundo-igreja.



Ser “amigo de Jesus” [João 15], para os crentes é estar em dia com a
doutrina, o dizimo e a freqüência.



Assim, para a maioria dos crentes, emocionalmente, é assim que João 15 é
sentido e praticado.



Ora, o resultado é o desastre cristão desses quase dois mil anos!



De fato, a religião cristã é um estelionato espiritual, pois, chama para
si, como se fora Deus, aquilo que é de Deus e somente passível de
realização Nele.



O que Jesus dizia era tão simples.



O que Ele dizia é apenas isto:



Absorvam a minha Palavra; o meu ensino; e o pratiquem com amor por mim e
por todo ser humano. Se vocês sempre crerem que a Vida de vocês está em
mim e vem da obediência ao mandamento do amor, então, vocês serão meus
amigos; e, assim, toda a verdade de minha Palavra será fato e bem na
vida de vocês. Mas, sem mim, sem vida em meu amor, sem absorção do
Evangelho no coração, por mais que vocês tentem viver e buscar o bem, de
fato vocês serão apenas como galhos soltos, secos e mortos; existindo
sob o engano de que existe vida em vocês, quando, de fato, pela própria
presunção de vocês, estarão mortos sem o saberem.



O resto a História do Cristianismo nos conta!

Caio Fábio - 24 de novembro de 2008.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Perdas e ganhos

Perdi a fé. Sem qualquer constrangimento, sem medo, saio do armário e confesso publicamente: Perdi a minha fé. Estou consciente que hei de constar no fichário condenatório do Santo Ofício. Corro o risco de ser torturado no garrote gospel.

Receberei inúmeras advertências. Minha caixa postal vai se entupir com mensagens de gente decepcionada. Serei aconselhado a não destruir o meu “futuro promissor”; vão lembrar-me do fogo do inferno, reservado para quem retrocede. Mas não há muito o que fazer, não planejei perder a fé.

Caminhei pelos porões escuros da humanidade. Conversei com pessoas carbonizadas no fogo do sofrimento. Vi crianças subnutridas, sem força sequer de sugar o peito mirrado da mãe. Li uma tonelada de tratados teológicos que tentavam explicar o sofrimento universal. Ouvi um sem-número de sermões sobre a condição humana. Temi os castigos eternos e aprendi sobre os meios que conduzem ao perdão divino. Entretanto, pouco a pouco, vi-me desgostoso com explanações, que julgava simplórias - a princípio, apenas antipatias. Depois, passei a rejeitar o que as pessoas chamavam de fé. Por fim, conscientizei-me que simplesmente não era mais condômino do edifício onde residiam muitos religiosos.

Perdi a fé em um Deus que precisa de pilha para mover o braço. Deixei de acreditar que a “Duracell” que faz Deus “funcionar” seja a fé. No passado, eu procurei mostrar à Deus toda a minha sinceridade. Eu acreditei, piamente, que, caso conseguisse acabar com a dúvida ou hesitação, seria testemunha ocular de grandes prodígios. Jejuei para mortificar a mente; eu precisava calar as minhas inquietações. Certa vez, ao lado do leito de morte de um amigo, chorei desesperadamente; não pelo amigo que agonizava, mas por mim. Eu sabia que, por mais que tentasse, nunca conseguiria demonstrar uma fé inabalável. Meu amigo morreu e eu carreguei por muito tempo, a culpa dele não ter sido curado.

Perdi a fé em um Deus que recusa atender qualquer petição enquanto não houver santidade total. Diziam-me que Deus só ouve os “vasos” puros. Um pensamentos furtivo era suficiente para eu me sentir um lixo humano. Imaginava os difíceis graus de devoção e pureza necessários para eu poder “reivindicar” uma bênção. Vi que jamais teria acesso à bondade divina porque as minhas penitências nunca foram suficientes. Como nunca fui devidamente alvo, minha imperfeição me condenava; um pastor sem milagres, portanto, desqualificado.

Perdi a fé em um Deus que só opera nas micro-realidades. Eu acreditava que Deus intervém pontualmente, isto é, focado e restrito às complicações e necessidades de pessoas. Mas eu não me sentia inquieto. Sequer perguntava: por que essa mesma fé intervencionista não serve para resolver, por milagre, as desgraças que assolam nações e continentes? Ora, se Deus abre uma porta de emprego para um indivíduo, porque não reverte com uma simples ordem, a crise econômica que desemprega milhões?

Perdi a fé em um Deus discriminatório. Já não consigo acreditar em um Deus que pinça alguns para premiar com milagre, mas deixa muitos outros a ver navios. Não faz sentido aplicar a lógica dos bingos e das loterias nos espaços religiosos - para cada sortudo sobram milhões de azarados. Se há razões misteriosas para Deus agir assim, e ninguém pode questionar; se ele trabalha no escuro e a vida é um tapete trançado que só faz sentido do lado da eternidade, então só resta à humanidade seguir os trilhos do destino. Fé não passa de uma mera submissão à bitola do que já foi providencialmente traçado por Deus.

Perdi a fé, mas não sou incrédulo.

Ganhei uma nova fé que celebra a imanência de Deus. Agora percebo que Deus não está longe, mas vive em nós e entre nós. Seu nome é Emanuel, o Deus conosco. Ele está mais próximo que nosso hálito, mais entranhado que nossa medula e mais íntimo que nossos pensamentos. E fez o seu tabernáculo no coração dos homens e das mulheres.

Ganhei uma fé que bendiz a compreensibilidade de Deus. Ele não mede nossa inadequação com critérios tão rigorosos que precisaríamos nos transformar em anjos. Como pai, Deus não leva em conta as nossas transgressões, pois se lembra que somos pó. Deus não rejeita, mas perdoa. Sua pedagogia é libertadora.

Ganhei uma fé que não espera por intervenções de Deus. Minha fé virou uma aposta: Creio que os valores do Reino são suficientes para que eu atravesse a vida sem perder a alma. Minha fé possui uma convicção: Jesus é o modelo digno de ser imitado. Estou certo que seguindo as suas pegadas serei justo, solidário e realizado.

Ganhei uma fé que não tem a expectativa de favoritismo. Busco a mesma atitude de Moisés que, diante da possibilidade do povo não entrar na terra prometida, disse: “Se eles não entrarem, risca o também o meu nome do livro da vida”. Antes de ser brindado por qualquer dádiva, espero que as crianças famintas do Congo, Darfur e sertão cearense, tenham água, comida, roupa, educação e muitos brinquedos.

Estou feliz pela fé que perdi, mas esfuziante com a nova fé que ganhei.

Soli Deo Gloria.

Texto do sempre querido (por nós) e muito odiado (por muitos outros) conterrâneo Ricardo Gondim.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

A BÍBLIA É BABEL

A Bíblia não pode estar acima da vida. A maior autoridade na vida é a vivência mesma e não o texto sagrado da religião. O que contraria um pilar da tradição evangélica. Proponho inverter a afirmação tradicional. A vida é a maior autoridade sobre a Bíblia.

A hermenêutica evangélica da Bíblia hierarquiza o texto sagrado dividindo-o em patamares de estilo e valor: o texto normativo e o narrativo. Por ser uma escrita escorregadia, marcada pelas singularidades e obscuridades das experiências humanas, o texto narrativo precisa ser iluminado pelo texto normativo, aquele que discorre sobre Deus e doutrina a vida do crente. Sendo assim, grande parte dos evangelhos e do Livro dos Atos dos Apóstolos careceria ser interpretada com o auxílio preciso das Cartas Apostólicas. Também se sujeitariam a estes os poéticos e apocalípticos. Afinal de contas, o que fazer com o sorteio que define a vontade de Deus para a substituição no colégio apostólico, ou com a quantidade exorbitante de vinho providenciada pelo festeiro Nazareno transformando água em vinho? Os narrativos escandalizam, os normativos devolvem a ordem.

Esta compreensão hierarquizada da Bíblia já é uma “ginástica” conceitual para administrar a violência imposta à vida humana ao submetê-la a uma autoridade carente de dinamismo, à força fria do que está escrito. Os textos narrativos, maioria sugestiva da Bíblia, são repletos de ambigüidades, contradições, tensões, becos sem saída e imprecisões, porque são o retrato da vida de homens e mulheres que experimentaram Deus em épocas e culturas próprias. Da mesma forma que o discurso religioso quer sujeitar a vida ao texto bíblico, sua hermenêutica obriga-se a calar a polifonia irresistível dos textos narrativos com a mordaça dos chamados textos normativos.

Como se já não bastasse a hercúlea tarefa de arranjar a “Bíblia” de forma a maquiar suas imprecisões textuais e sua distância cultural em relação ao leitor, impõe-se ao crente arranjar sua vida de forma a encaixá-la na moldura das Escrituras, ou pelo menos dar esta impressão. Entenda o enquadramento da vida pelas Escrituras pelo que delas se compreende e se institui como fiel interpretação. Assunto com que já nos ocupamos em textos anteriores a este.

Acredito que precisamos ampliar o alcance da doutrina cristã da encarnação. O Deus que se fez gente deveria ser a mais importante chave de compreensão da Bíblia. Sendo assim, podemos entender o gesto de se esvaziar da condição acima da vida para assumir a condição humana de viver como a rendição de Deus à única realidade em que o que diz à humanidade pode fazer sentido, na vivência.

A Palavra de Deus se enche de sentido no Verbo Encarnado. O Verbo Vivo não mata a vida para se impor como doutrina. “O ladrão vem para roubar, matar e destruir”. Doutrina que não se vivencia assalta a vida. Mas a Palavra encarnada é a que vivencia radicalmente a existência humana e nela promove a vida intensamente. (Jo 10.10) O movimento divino de encarnação é um ato libertador. É negação de qualquer fala que se desconectou da vida para a sua afirmação redentora. Antes de dizer, desdizer.

Talvez por isso Jesus tenha usado com freqüência as locuções “Ouvistes o que foi dito aos antigos (…) eu, porém, vos digo que (…)” (Mt 5.22-44) Um Deus encarnado precisa dizer de novo. Reinterpretar o que sempre disse, pois fala de dentro da dinâmica existencial dos viventes. Fala com cheiro, com timbre, com cara, com batimentos cardíacos, com cultura e história, é a Raiz de Jessé, o Filho de Davi. Judeu nazareno oprimido pelos romanos. É provavelmente carpinteiro, certamente pobre. É filho de Maria, primo de João Batista. É “comilão e beberrão”. É rabi. É o filho do homem. É gente. Tem que desdizer e dizer de novo.

Acredito que foi por isso que Jesus suspendeu a prática do jejum em determinado momento, rito previsto e normatizado na Lei, negando qualquer sentido ao jejum na “presença do noivo” Como também colocou o Sábado a serviço da vida humana e a libertou de seu senhorio desastroso: o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado. A vida é sagrada e não o mandamento do sábado. A Bíblia foi feita a partir da vida humana e não a vida humana a partir da Bíblia. A Bíblia sagra-se na vida.

Jesus re-significou a lei diante da mulher flagrada em adultério. A célebre pergunta “quem não tiver pecado atire a primeira pedra” seguida do perdão nada mais foi que a vida legislando sobre a Lei. Silenciou a opressão da palavra que acusa e condena e deu voz ao perdão e à esperança. Jesus é a vida se impondo sobre a letra. Mulher, onde estão os teus acusadores? Ninguém te condenou? Tão pouco eu te condeno. Vá e abandone a vida de pecado.”

A grande pressão sofrida por Jesus, sua maior tentação, foi a de inverter a relação. Violentar a vida impondo sobre ela as regras vindas do alto. Ao que respondeu com uma metáfora. “Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto”. (Jo 12.24) Mesmo diante da morte previsível, Jesus se nega a jogar com outras regras que não as da vida. As únicas que poderiam produzir muito fruto. Regras acima da vida fariam a palavra de Jesus uma palavra solitária, sem sentido. A palavra encarnada na vida, inclusive na possibilidade previsível da morte, é solidária, é comunhão, são muitos frutos, tem muito sentido. O mundo é reconciliado com Deus apenas na palavra que frutifica no solo da existência humana.

É por isso que o pregador que vocifera promessas de milagre precisa deixar o púlpito e freqüentar os quartos de hospitais onde esperam pelo último suspiro centenas de enfermos. Gente que nunca experimentará a tal “fé” que produz milagres. Pela mesma razão lamento a dor, mas celebro a oportunidade de ter a companhia de pastores que experimentaram o fim do casamento. Eles sim têm o que dizer sobre a interpretação de textos bíblicos a respeito do divórcio e novo casamento. Festejo a globalização e o acesso em tempo real aos fatos do mundo, pois enquanto reclamamos de Deus um jeitinho para os nossos mínimos problemas somos também constrangidos pelos campos de refugiados em Darfur.

Não tenho dúvida de que essa necessidade de alçar o texto bíblico acima do mundo vivido é uma manobra de perpetuação de poder, ou seja, da religião instituída. Apenas a instituição teme a leveza da vida humana, sua imprevisibilidade a ameaça, seu descontrole a esvazia, sua circunstancialidade a relativiza. Por isso o texto precisa emoldurar a vida humana e confirmar a relevância da religião organizada. Não consigo parar de repetir que a Bíblia que se posiciona acima da vida é sempre a imposição de uma interpretação dela e nunca ela mesma.

A Bíblia em si mesma é a sabotagem divina à sistematização dos amantes do poder. A Bíblia é Babel. A confusão de línguas e histórias impedindo a divinização dos edifícios. Babel é a vida liberta por Deus das amarras hegemônicas dos poderosos. A Bíblia é Deus confundindo os esforços cartesianos de aprisionamento da verdade. A Bíblia é Deus libertando a vida das razões absolutizantes. A Bíblia é Deus babelizando os poderosos e espalhando a verdade por tantos viventes quantos haja. A Bíblia é tão narrativa quanto à vida. E tão desorganizada, imprevisível, imprecisa, surpreendente e contraditória quanto a vida de qualquer um de nós.

E é justamente porque a Bíblia se parece muito com a vida humana que tem muito e sempre o que dizer à humanidade. Sendo um livro essencialmente narrativo é Deus falando enquanto vivemos.

Gadamer fala da compreensão como um jogo. Um jogo dialógico e dinâmico. Como em um jogo, só se compreende bem algo, suas regras e funcionamento, a medida que é vivenciado. Aprendemos um jogo não quando lemos suas regras, mas quando o jogamos. Aí sua dinâmica é apreendida. Ninguém aprende a jogar a partir de uma manual de regras, mas a partir do jogo mesmo. Porque um jogo é muito mais que as regras de seu funcionamento. É intuição. Discernimento. Interpretação. Improviso. Imaginação. Só então as regras do jogo fazem algum sentido.

A Palavra de Deus também. Enquanto vivemos, a Bíblia pode ser compreendida na dinâmica do que experimentamos. O que diz só faz sentido a partir do que vivenciamos. O que acreditamos dizer a Bíblia como Palavra de Deus é apenas o que faz sentido na vida que experimentamos aqui e agora. O que cai no solo da existência humana e frutifica. O que promove e afirma a vida humana. “A letra mata, mas o Espírito vivifica”.

Para a vida humana, com tantas vozes e imprevisível, uma Bíblia tão falante e tão surpreendente.

Elienai Cabral Junior

Obs: Tantas coisas já vivemos e falamos com os próximos a respeito de coisas como essa. "Queremos vida", é o que temos afirmado (os três autores do blog) constantemente. O Elienai nesse texto conseguiu exprimir com uma maestria impressionante esse sentimento. particularmente, foi a alegria dessa segunda melancólica e cinzenta. Impossível não dedicar isso aos amigos, mais do que irmãos, e toda a turma do Caminho Canoas que ontem proporcionou a nós todos uma noite tão gostosa.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

As CNTP da Religião

Guardei muito pouco das aulas de ciência no ginásio. Suei em decorar fórmulas, multipliquei números gigantescos para quase nada. Pouco ficou, mas recordo-me, para determinadas fórmulas químicas e exercícios teóricos de física precisávamos da sigla CNTP ou “Condições Normais de Temperatura e Pressão”; significando que aquela proposição científica só funcionava nas CNTP; ou em outras palavras, em condições ideais.

Portanto, descobri cedo que condições ótimas só existem, de verdade, em tese. CNTP funcionam no laboratório, em ambientes controlados ou idealizados pelo cientista; e só para comprovar uma hipótese já que qualquer alteração, por menor que seja, altera o resultado da experiência.

Viver é arriscado. Imprevistos e perigos, dor e angústia, sofrimento e injustiça, rondam a existência. Seria fantástico viver em um mundo em “condições normais de temperatura e pressão”. Por isso, garimpamos as varinhas de condão, as lâmpadas dos gênios, os ideais políticos, os abracadras, as preces. Sonhamos em criar um mundo que funcione com a precisão dos relógios suíços.

Desejamos viajar sempre em céu de brigadeiro. Também seduzidos por um mar de almirante, tentamos recriar o universo. Acreditamos que existe a possibilidade de eliminar os riscos. Oramos pedindo a proteção divina para sermos blindados contra as ameaças da vida. Imaginamos que se pedirmos, e não tivermos nenhum pecado, jamais seremos surpreendidos por acidentes. Esperamos que Deus nos poupe de pneus furados, de motoristas incautos ou de buracos no asfalto.

Tolamente aguardamos o dia em que o mundo estará sob controle absoluto. Só que esse dia nunca chegou e acabamos vergados de culpa. “O que fiz de errado para que meu filho morresse?”, perguntou-me um pastor, recentemente. “Por que as coisas nunca dão certo para mim?”, é o e-mail mais repetido em minha caixa de mensagens.

Cristo não dourou a pílula e jamais iludiu os seus discípulos porque sua mensagem não era religiosa. Ele nunca prometeu que traria a vida das pessoas debaixo de CNTP. Pelo contrário, disse que os enviava como ovelhas para o meio de lobos, que as tempestades açoitam a casa dos que ouvem e guardam a sua palavra, e que o mundo dos seus seguidores seria cheio de aflições. Ora, ele viveu sem parapeitos, sem redomas, sem proteção angelical. Por que seus servos reivindicariam qualquer blindagem celestial?

Ouso redefinir fé. Fé não significa esperar ser possível antecipar-se às contingências da vida. Fé é coragem de acreditar que os valores, princípios e verdades propostos por Jesus de Nazaré são suficientes para enfrentar a vida com tudo o que ela trouxer, de bom e de ruim.

Religião tem a ver com segurança, com a possibilidade de encaixar o mundo na lógica da causa e do efeito. Os cultos, as penitências, as orações, visam tão somente engrenar as circunstâncias e dar aos fiéis a sensação de viverem nas CNTP. Ledo engano! Logo a bolha estoura. Com as doenças, os acidentes, os imprevistos, a própria morte, chega a decepção. E o pior desapontamento é religioso. Os decepcionados com Deus experimentam o inferno. (Jesus advertiu que prosélitos religiosos são condenados a um duplo inferno).

O amor não antecipa a ordem. Quem ama sabe que a desordem será possível. Deus não deseja que seus filhos vivam com a ilusão de que serão escudados. Pois para que isso acontecesse, ele precisaria encabrestar a história, o dia a dia e até o porvir. Um mundo indolor teria que ser um mundo sem liberdade. E sem liberdade não existe amor - acontece que Deus é amor.

Portanto, a promessa divina não nos resguarda do mundo. Sem alucinações, Deus nos acompanha na deliciosa e perigosa aventura de viver.

Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim